O papel da mente
O desporto e a compreensão do papel da mente nas diversas áreas da nossa vida têm sido uma área de grande interesse nas minhas reflexões. Sempre me intrigou perceber até onde poderia ir e de que forma a mente poderia contrariar a tendência do corpo para abrandar. Experimentei diversas modalidades, desde artes marciais ao surf, mas, mais recentemente, dediquei-me ao triatlo, uma combinação de três desportos de endurance que exigem simultaneamente do corpo e da mente, pela sua duração e intensidade. Este percurso levou-me a questionar, e a aprofundar, o papel da mente neste tipo de exigência.
A mente assume, de facto, um papel central nestas práticas. Desde o início deste percurso, fui identificando algumas mudanças na minha vida, nomeadamente ao nível da tolerância à frustração e da capacidade de regulação em momentos de maior exigência.
Apesar de ouvirmos frequentemente ideias que enfatizam a influência da mente na nossa vida, a repetição desta mensagem pode levar à sua desvalorização. No entanto, a mente pode exercer um impacto significativo - tanto facilitador como limitador. É precisamente esta dualidade que torna relevante compreender de que forma a nossa mente responde quando é colocada à prova em diferentes contextos. Tal como um músculo, também a mente pode ser treinada.
É possível encontrar diversos livros e podcasts de atletas de alto rendimento que descrevem o desenvolvimento de competências mentais que permitem ao corpo superar momentos de quebra, bem como a transferência dessas aprendizagens para outras áreas da vida. O que mais me marcou nestes relatos foi a ideia de que, enquanto sociedade, podemos beneficiar de uma maior consciência acerca da nossa capacidade interna de mudança. A mente não só pode contribuir para ultrapassar limites físicos percebidos, como também para transformar a forma como nos vemos, como interpretamos os outros e como nos posicionamos no mundo. Do mesmo modo que conseguimos persistir fisicamente para além do que inicialmente julgamos possível, também podemos trabalhar crenças e perspetivas que tendemos a considerar imutáveis.
Com isto, não pretendo sugerir que todos devam envolver-se em práticas desportivas de elevada exigência mental. No entanto, acredito que cada pessoa tem áreas da sua vida em que já recorreu à capacidade mental para superar desafios. Desenvolver maior consciência sobre essa capacidade e aprender a potenciá-la pode constituir um contributo relevante para o bem-estar.
A par do processo terapêutico, que é fundamental para a promoção do bem-estar, considero igualmente importante valorizar as diferentes áreas da vida como oportunidades para desenvolver a mente e promover um crescimento integrado.
Tomás Jesus
Psicólogo Júnior – Dialógicos