O caso da instituição que engoliu a ferramenta
E se, na hora de escolher um psicólogo, o mais importante não fosse a escola teórica, a experiência, ou o preço da consulta, mas sim o grau de loucura de quem está do outro lado? Há quem diga de forma coloquial e sem muita cerimónia que as opções se resumem a duas - maluco ou psicopata - e que o melhor que pode acontecer é calhar no primeiro.
Joyce McDougall, psicanalista nascida em 1920, teve a audácia de formular esta ideia num importante colóquio psicanalítico, onde defendeu que os "normais", ao contrário do que se poderia esperar, são os que mais pedem cautela - os que se afirmam convictos de que estão bem, muito bem, perfeitamente bem na própria pele. Para perceber o peso desta afirmação, é preciso lembrar de que seio nasceu a psicanálise.
A psicanálise não brotou do sonho de confortar; nasceu marginal, do berço do desconforto e da subversão, da ideia escandalosa de que o inconsciente não só existe, como não pede licença para emergir de alguma forma no mundo acordado. O próprio Freud era o outro e o estranho da sala, e o que quebrava um pouco a tranquilidade do ser bem e bem parecer. Mas Saturno também era pai.
Do colóquio ao consultório, a distância é menor do que parece, uma vez que existe uma diferença entre o psicólogo que usa a teoria para olhar, e um que a usa para não ser olhado; o que traz a teoria como ferramenta, e o que se escuda nela como armadura. McDougall daria o nome de normopata a este tipo de perfil de quem não consegue sequer imaginar que há algo a transgredir e que, por isso, vive demasiado bem na própria pele. Quando o próprio ouvido que escuta é normopata, McDougall avança com a hipótese de que o melhor terapeuta não é o que chegou definitivamente a algum lado muito sério, mas o que continua a questionar-se, dando-se assim a devida desimportância.
Há pessoas que chegam ao consultório não para serem consertadas, até porque ninguém chega assim tão partido que precise de entregar as chaves a um outro, ainda mais desconhecido. O desconforto de não caber não é um sintoma à espera de nome, mas sim uma experiência à espera de alguém que a ouça sem pressa de a arrumar. Quem procura ajuda precisa de um profissional que reconheça o território do não-caber e não se assuste com o não-saber próprio de qualquer relação humana. É necessário que seja garantido um chão comum onde nos possamos desorganizar em segurança: como nos desorganizamos perante um outro que não tolera em si mesmo a falta de ordem?
McDougall termina o seu texto com uma frase de Freud: "ninguém conduzirá seus analisandos mais além do exercício de sua própria capacidade de questionar-se." Ninguém chega mais longe do que aquilo que está disposto a ver em si próprio: paciente e psicólogo.
Sugestões de leitura
- Em Defesa de uma Certa Anormalidade (1983), de Joyce McDougall
- A Loucura da Normalidade (1987), de Arno Gruen
- O Medo do Colapso (1974), de D. W. Winnicott
Carlota Rocha e Cunha
Psicóloga Júnior – Dialógicos