O que temos por dentro
As vivências do passado moldam-nos, marca-nos e têm um poder transformador, ainda que tragam consigo dores que parecem não passar. Em consulta, ouvimos tantas vezes: “eu não sei ser de outra forma, foi assim que me ensinaram”. Visto de fora, esta frase pode ser interpretada como inflexibilidade, rigidez ou incapacidade de se permitir à mudança. Mas visto por dentro, raramente é assim tão simples. Em consulta de psicologia, vemos por dentro. E, não raramente, maravilhamo-nos com a vida interna que cada pessoa transporta consigo. Com as estórias que são suas, mas que também pertencem a quem delas cuidou, a quem esteve presente ou assistiu, a quem ensinou, de forma explícita ou mais silenciosa, a estar no mundo.
Na verdade, dizer “não sei ser de outra forma” é, muitas vezes, um pedido de ajuda. Um pedido feito com medo, muito medo, que frequentemente se apresenta disfarçado de zanga, de irritação, de resistência e também de desamparo. Mas tudo isso não é mais do que uma tentativa de proteger o que é mais frágil, e é o que temos por dentro.
Quando em consulta, nos aproximamos com cuidado, do que poderia ser diferente, seja na forma de se relacionar, de se aproximar dos outros, de se permitir à intimidade, de escolher por si, algo começa a mudar. E, começamos então a ouvir: “era isso que eu queria… mas não sei como isso se faz”.
Porque a mudança, mesmo quando desejada, assusta. Não traz apenas esperança, traz também a angústia que quebrar lealdades internas, de se afastar do que foi intensamente interiorizado, sentido e vivido ao longo da vida. E consigo, o medo da rejeição, do desamparo e, mais profundamente o medo de perder o amor e a sensação de pertença.
Este medo e esta dor também precisam de colo, de contenção e de amparo, para que a pessoa se possa fortalecer e permitir-se à reformulação. O verdadeiro processo acontece quando se percebe que essa reformulação não implica cortes ou fraturas definitivas, mas representa antes um convite a uma nova forma de ser e de estar, onde é possível conciliar o que houve no passado, com o que há no presente e com o que pode haver no futuro.
Raquel Costa