As manchas de Cassandra
Há dias conheci a Cassandra. Já tinha ouvido falar de algumas Cassandras mas, até àquela semana, a Hécuba que eu conhecia era a d'A Naifa. Acabada de aterrar na Faculdade de Letras, fui descobrindo maravilhada as histórias do destino, da geração, do dom e da maldição. Aos poucos, de forma mais atrapalhada por estar fora do meu campo, fui arrumando as aprendizagens e quando dei por mim vi que tinha construído o doente encaixotado no polo psicótico.
Nas Troianas de Eurípides, Cassandra entra vestida de sacerdotisa, a cantar e a dançar com tochas acesas nas mãos. Cassandra recria o ritual de casamento para um momento trágico, para um cativeiro que a espera. Hécuba, rainha de Tróia e mãe de Cassandra, tenta calá-la: pede-lhe o fogo, pede-lhe que se componha, explica-a aos outros, tenta domar a bacante.
Escreveram-se muitas Cassandras desde então, e continuam a escrever-se. Cada época volta a pôr em cena esta mulher que ninguém ouve e em quem ninguém acredita. Escrever sobre alguém obriga sempre a decidir o que é que dessa pessoa passa para o papel: o discurso, o tom, a adequação do afecto ao conteúdo, a postura, o contacto ocular, se é colaborante ou resistente. Tudo isto se avalia pelo ouvido e olhos de quem transcreve, que passa assim, de alguma forma, a senhorio do corpo alheio, que guarda o incómodo longe de casa; seja o caso de alguém chegar com uma intensidade errada a dizer uma coisa mais ou menos certa, já sabe que vai ser, também, devidamente encaixotado.
Há pessoas que percebem que uma sala mudou antes de a conversa mudar, ouvem o que fica por dizer entre duas frases aparentemente confusas, reparam na distância entre o que se diz e o que se está a passar. E em vez de ficarem caladinhas e passarem pelos pingos da chuva, apontam o dedo à incongruência. “Então não sabes que é feio apontar?”: já está o pecado consumado e o gesto impresso no papel com o devido código: a mesma lucidez que lhes permitiu perceber torna-se, paradoxalmente, a evidência de que não se pode confiar no que perceberam.
Não quero com isto dizer que nos ansiosos e catastrofistas reside a essência de toda a verdade e conhecimento. Quem é humano engana-se muitas vezes, e o terror não é forma superior de conhecimento; entre cheirar o gás e concluir seja o que for vai um caminho comprido, que às vezes não chega a lado nenhum. A reação é, contudo, a mesma em ambos os casos, surgindo antes de ser possível distinguir entre um perigo real e um falso alarme.
Há histórias que salvam, há histórias que nos encaixotam: de dentro é difícil distinguir umas das outras - as pessoas ajustam-se ao que lhes dizem que são; crescem, editam-se, escondem-se, diminuem-se, a palavra confunde-se com a pessoa – sou maluca, ou sou a maluca? A falha talvez não seja de um lado só, pois quando duas pessoas não se entendem há sempre duas maneiras de não entender, contudo apenas uma delas é validada. Penso nisto sobretudo a propósito de quem é diagnosticado com algo que não neurose, que passam a vida a ser descritas por quem não as percebe. E penso nisto agora, no último parágrafo, que é mais ou menos o lugar que estas coisas costumam ocupar.
Carlota Rocha e Cunha
Psicóloga Júnior – Dialógicos
(Rubrica – Ponto de Reflexão… - Julho 2026)