Quando as férias não dão para descansar
Chega o verão e, com ele, as tão desejadas férias com o objetivo do tão desejado descanso. Ou, pelo menos, é isso que costumamos dizer.
Mas será que sabemos mesmo descansar?
Ao longo do ano, habituamo-nos a viver num ritmo acelerado. Acordamos já a pensar na lista de tarefas, respondemos a mensagens enquanto fazemos outras coisas, tentamos estar presentes em vários lugares ao mesmo tempo. Corremos entre o trabalho, a família, as responsabilidades, os compromissos e as expectativas. E, sem darmos por isso, a pressa deixa de ser uma circunstância para se tornar um modo de viver.
Depois chegam as férias.
E, de repente, espera-se que consigamos desligar. Que o corpo relaxe, que a mente acalme e que o tempo abrande. Mas nem sempre isso acontece.
Há pessoas que, ao fim de dois ou três dias, começam a sentir um desconforto difícil de explicar. Sentem necessidade de estar constantemente ocupadas, procuram atividades sem parar, verificam o telemóvel compulsivamente ou até ficam ansiosas por regressar ao trabalho. Surgem algumas discussões, onde as diferentes expectativas colidem...
Esse é um momento essencial para que as famílias consigam olhar para si próprias e perceber os diferentes ritmos de cada um.
Cresceu num ambiente onde descansar era valorizado ou onde era visto como preguiça?
Aprendeu que o seu valor depende daquilo que faz ou daquilo que é?
Quando não está a produzir, consegue sentir que continua a ser suficiente?
Por vezes, aquilo que chamamos "não conseguir parar" não é falta de vontade. É um corpo e uma mente que aprenderam durante anos a funcionar em estado de alerta. É uma identidade construída em torno do cuidar dos outros, do fazer. E quando tudo isso abranda, pode surgir algo que, no quotidiano, estava constantemente abafado: o cansaço, a tristeza, a solidão, a dúvida ou até a sensação de não saber quem somos sem todas as tarefas que nos ocupam. No dia a dia, muitas vezes, nem existe tempo ou espaço para percebermos se estamos felizes com a nossa vida.
As férias tornam-se, assim, um espelho. Mostram-nos, não apenas como descansamos, mas também como vivemos.
Talvez o verdadeiro descanso não aconteça quando mudamos de lugar, mas quando conseguimos mudar de ritmo. Quando deixamos de medir os dias pela quantidade de coisas feitas e começamos a medir pela qualidade da presença.
Talvez descansar seja também permitir-se não fazer nada durante alguns momentos, sem culpa.
Observar um pôr do sol sem fotografá-lo. Conversar sem olhar para o relógio. Brincar com os filhos sem pensar no que ficou por responder.
E se este verão, em vez de perguntar apenas "O que vou fazer nas férias?", perguntasse:
De que preciso realmente para recuperar?
O que é que o meu corpo me tem tentado dizer ao longo do ano?
Quando foi a última vez que me senti verdadeiramente tranquilo?
O que gostaria de levar comigo quando as férias terminarem, para além das fotografias?
Que ritmo quero escolher para a minha vida, e não apenas para estas duas semanas?
Talvez as férias não sejam apenas uma pausa no calendário. Talvez sejam um convite para reencontrar um ritmo mais humano, mais consciente e mais alinhado com aquilo que realmente importa.
Porque descansar não é um luxo. É uma necessidade, e muitas vezes, é também um ato de coragem.
Mariana Cardoso
Terapeuta Familiar e de Casal