Que mãe é esta, que parece diferente?
No livro O Quarto da Criança, Teresa Ferreira descreve o quarto como um espaço que deve poder permanecer da criança: um lugar onde ela possa criar, construir e destruir, sem que cada mudança do mundo dos adultos tenha de se inscrever ali. Entre as rápidas transformações que acompanham o crescimento, conservar esse espaço como lugar de continuidade pode ter uma importância particular. Contudo, um quarto pode permanecer exactamente igual e deixar de ser o mesmo, com a cama por fazer, os livros desalinhados e os brinquedos dispersos pelo espaço - há vida que acontece fora do quarto e que impacta diretamente o que dentro se vive.
Um telefonema que passa a ser atendido no corredor, com a porta que, na pressa, não ficou bem fechada; uma ausência às quintas-feiras à noite que, no início, tem uma explicação (ginásio, jantar com amigas, uma reunião), mas que depois deixa de ser nomeada; uma conversa interrompida quando a criança entra na cozinha. A mãe que olha para o telemóvel e sorri de uma maneira que a criança não conhece. Um dia, uma camisola rosa e roxa, embora a mãe nunca tenha gostado dessa combinação de cores, e uma alegria desproporcionada por a ter encontrado.
A criança não sabe ainda que estes acontecimentos pertencem uns aos outros. Não os reúne sob uma mesma ideia; regista-os como sempre registou as coisas que fazem parte da casa: a hora a que os pais chegam, o barulho das chaves na porta, o cheiro do jantar, a maneira como a mãe fecha os armários. É assim que começa a perceber que alguma coisa mudou; embora não exista uma conversa em que alguém explique o que se passa, a mãe continua a ser a mãe, o pai continua a ser o pai, e os três continuam a viver na mesma casa.
As coisas tornam-se reais depois de terem um nome: a criança, que aprendeu com a mãe a dar nome ao que sentia e ao que acontecia à sua volta (“o bebé tem fome”, “de quem é este nariz?”, “tiveste um arrufo na escola e ficaste triste.”), encontra agora qualquer coisa que não conhece inteiramente e que não sabe nomear; paira algo no ar que nem se deixa traduzir nem é traduzido. A criança percebe que a mãe sabe alguma coisa que ela não sabe (ou talvez nem a mãe saiba ainda), mas há qualquer coisa nos seus silêncios, nas ausências, na forma como se veste, na maneira como guarda o telemóvel, que parece pertencer a uma parte da sua vida onde a criança não entra nem conhece.
A criança tenta encontrar uma palavra, embora saiba que não é bem aquela. Talvez a tenha ouvido no recreio, numa conversa entre crianças mais velhas, numa piada que não percebeu a graça mas compreendeu que era algo que não devia dizer. Guarda-a porque precisa de qualquer coisa para dar nome ao que está a tentar perceber. Repete-a em silêncio para testar se é aquela palavra; chega a imaginá-la numa frase para a mãe, mas acaba por não a verbalizar.
Melanie Klein descreveu a posição depressiva como o momento em que a criança começa a integrar aquilo que antes vivia de forma mais separada: a mãe amada e a mãe que frustra, a mãe desejada e a mãe temida passam a ser reconhecidas como uma só pessoa. A criança descobre que o objecto amado existe para lá dela, que tem uma vida própria e que nunca poderá conhecê-lo por inteiro. Embora esta seja uma conquista, é também uma perda, e a criança deixa de habitar o mesmo ninho, uma vez que “quem come do fruto do conhecimento é sempre expulso de algum paraíso”: perde a fantasia de uma mãe inteiramente conhecida, disponível e feita à medida daquilo que dela precisava, e encontra alguém que pode amar e desiludir, acolher e recusar, alguém cuja vida interior não lhe pertence.
Nesta espécie de espreitar do armário, onde não há propriamente um grande anúncio ou penosa confissão – nem a mãe decide contar nem o filho perguntar - a verdade emerge por outros meios, através de pequenos sinais que a criança começa a juntar muito antes de lhe explicarem, e vai deixando para trás a imagem que tinha construído da mãe. Quando regressa ao quarto, nada parece ter mudado: a cama continua por fazer, o peluche está ao lado da almofada e os livros não se arrumaram. A porta do armário está entre-aberta, mas já não é a mesma criança que olha para dentro.
Carlota Rocha e Cunha
Psicóloga Júnior – Dialógicos
(Rubrica – Ponto de Reflexão… - Setembro 2026)