Quando o medo é maior que a vontade
O que se encontra aos olhos dos que estão de fora não é nada mais do que aquilo que aparenta. E o que aparenta é tão maior ou menor quanto melhor for a perceção de cada um que vê e julga. E a perceção não é apenas o que cada um vê, mas também como se vê. E para se ver temos que pensar, temos que interpretar. E essa interpretação é influenciada, muitas das vezes, do que já conhecemos daquela pessoa, mas não só, também da nossa imaginação para com as intenções dessa pessoa. Para além disso, é sempre interessante quando pensamos “se fosse eu…”, ou “se fosse comigo…”. Engraçado que a nossa empatia, ou tentativa dela, por vezes sai em saco furado, porque tentamos entender as atitudes dos outros através das nossas intenções e não das intenções dos mesmos. Mas enfim, é essa a magia do ser humano, do relacionamento humano, a busca da compreensão, do conhecimento, do descobrimento, da harmonia e desarmonia, a procura do confortável e também do desafio.
Agora coloca-se a questão: E o medo? É incluído na equação? É compreendido? É dada a devida importância? E quando o medo é maior do que a vontade?
O medo é paralisante. Tão, mas tão pesado que não nos permite ser quem somos ou quem queremos ser. Medo de arriscar, medo de seguir em frente, medo de mudar, medo de melhorar, medo de piorar, medo de estar estagnado, medo de ter medo, medo de não ter medo, medo de sentir, medo de pensar, medo de agir, medo das consequências, medo do imprevisto, medo do futuro, medo do presente, medo do passado, medo dos outros, medo de nós, medo de quem está, medo de quem não está, medo do que existe, medo do que não existe, medo do que outros pensam, medo do que os outros não pensam, medo de existir…
É realmente angustiante…tantos medos. E mais por vir.
E está tudo bem. Faz parte.
Mas e quando o medo não nos permite ser ou agir da forma como queremos? Esse nosso medo será compreendido? Será tido em conta? Ou apenas será percecionada a nossa atitude? Engraçado como o medo ocupa tanto espaço dentro de nós, mas a olho nu parece invisível, tão invisível que parece ser algo tão leve que muitas das vezes não é tido em consideração.
Quem faz, não faz, ou faz mal não tem que ser porque não quer ou porque não lhe apetece, mas apenas porque tem medo. E esse medo, muitas vezes, não é percetível, e muito menos compreendido. Então não entra na equação. E a vontade que é tão pequena que nem parece existir, não a olho nu, não na perceção dos outros, apenas dentro de nós, tal como o medo. O que salta à vista é a atitude, o que é visto e não como é visto.
O medo é maior do que a vontade quando a vontade é desvalorizada e o medo alimentado. Por vezes é importante ter alguém que entre no nosso quarto para sacudir o pó da vontade e abrir a janela para que se consiga olhar com olhos de ver para o medo, que é tanto maior quanto maior for a escuridão desse quarto. Tudo no escuro parece maior e pior.
Tornarmo-nos esse apoio, essa ajuda para alguém em que esse quarto está bem fechado, isolado e sem esperança de que possa existir alguém que olhe de frente para o seu medo, que entenda essa angústia e veja essa vontade escondida, mas não tão menos importante. Que veja para além da atitude e do comportamento, que olhe com olhos de ver. Por vezes falta-nos ser um pouco mais assim. Mas aí está…também posso ter medo de entrar no quarto de alguém. E está tudo bem. Mas mesmo que não entre no quarto, posso tentar não desligar a luz de presença do exterior.
Quando o nosso medo é maior que a vontade, a vontade do outro tem que ser ainda maior.
Diogo Fernandes
Psicólogo Clínico