O ser humano é, por natureza, um ser de relação. Crescemos, desenvolvemo-nos e encontramos significado através dos outros. Precisamos de cooperação para sobreviver no quotidiano, para trocar bens materiais, para resolver problemas e para construir aquilo que não conseguimos sozinhos. Para além do funcional, precisamos de alguém com quem conversar, partilhar silêncios, rir, e alguém perante quem simplesmente existimos sem ter de provar nada.
Apesar desta necessidade tão intrínseca, existe um receio no que diz respeito ao deixar alguém entrar - porque abrir espaço ao outro implica abrir espaço a que algo aconteça connosco. E é aqui que pode surgir a pergunta: o que poderá acontecer se eu permitir que alguém se aproxime verdadeiramente?
A resposta raramente é simples, porque todos carregamos memórias de relações que doeram. É inevitável: já todos fomos atingidos por alguma forma de abandono, afastamento ou por uma quebra de confiança que nos apanha de surpresa, situações que deixam uma marca real e a ideia de que sentir tudo de novo é algo que simplesmente não conseguimos suportar. E é aqui que, no nosso entender, a vulnerabilidade se torna uma ameaça, e que proteger-nos do risco parece ser a única forma de garantir a nossa segurança. No entanto, simultaneamente, limitamos a possibilidade de vivenciar relações mais profundas, mais autênticas e verdadeiramente nossas.
Mas, na verdade, ser vulnerável não é sinal de fraqueza. Muitas vezes é exatamente o contrário. É sinal de que ainda há espaço para nos ligarmos e de que ainda acreditamos que vale a pena tentar. O medo pode ficar, mas talvez possamos aprender a não deixá-lo decidir por nós. Porque, apesar de todas as dores, continuamos a precisar de relações que nos façam sentir vistos e acompanhados. E essas, quase sempre, só aparecem quando nos permitimos a abrir um bocadinho a porta.
INÊS GRIFF
Psicóloga Júnior - Dialógicos
Texto integrado na Rúbrica Ver.Sentir.Reflectir - Dezembro 2025